Geração Z: o desafio não é ensinar uma geração diferente, mas criar experiências que façam sentido

Por Raquel Ayres de Almeida, psicóloga e professora da UNIFASE
“Os alunos não prestam atenção.” “Ninguém lê mais nada.” “Eles querem tudo mastigado.” “Vivem no celular.” Essas frases fazem parte de conversas cada vez mais comuns entre professores. E, embora expressem desafios reais encontrados nas salas de aula, talvez seja hora de mudar a pergunta.
Em vez de perguntar o que há de errado com os estudantes de hoje, podemos perguntar: o que mudou no ambiente em que eles aprendem?
A chamada Geração Z cresceu em um mundo marcado pela internet, pelos smartphones, pelas redes sociais e pelo acesso imediato à informação. Mas isso não significa que esses jovens tenham um “cérebro diferente” ou que sejam naturalmente incapazes de manter a atenção, ler textos mais longos ou desenvolver pensamento crítico. A própria ideia de que são “nativos digitais”, com habilidades cognitivas completamente diferentes das gerações anteriores, não encontra sustentação suficiente na literatura científica.
O que mudou, principalmente, foi o ambiente.
Vivemos cercados por estímulos, notificações e possibilidades simultâneas de interação. Durante uma aula, é possível alternar entre uma apresentação, uma mensagem, uma rede social, uma busca na internet e uma ferramenta de inteligência artificial em poucos segundos. O problema não é simplesmente o celular. É que estamos tentando sustentar a atenção em um ambiente repleto de dispositivos e plataformas desenvolvidos justamente para capturá-la.
Isso não significa demonizar a tecnologia. Ela também amplia o acesso ao conhecimento, favorece a colaboração, a criatividade e a autonomia. O desafio está em saber quando ela contribui para aprender e quando começa a competir com a aprendizagem.
A Psicologia oferece algumas pistas importantes para essa discussão. Aprender não é apenas ouvir uma explicação ou reconhecer uma informação. É preciso recuperar, organizar, explicar e aplicar o conhecimento. Uma estratégia simples, por exemplo, é pedir ao estudante que, ao final de uma aula, registre as três principais ideias que consegue lembrar sem consultar o material. Esse esforço de recuperação ajuda a consolidar a aprendizagem.
A motivação também merece outro olhar. Quando um estudante pergunta “por que preciso aprender isso?”, nem sempre está demonstrando desinteresse. Pode estar procurando sentido. Mostrar como determinado conteúdo se relaciona com problemas reais, com a futura profissão ou com decisões que ele precisará tomar pode transformar sua relação com o conhecimento.
O mesmo vale para o feedback. Em uma cultura acostumada a respostas rápidas, curtidas e notificações, o retorno do professor pode ser uma ferramenta poderosa — desde que não seja apenas um elogio. Dizer “muito bom” reconhece, mas nem sempre ensina. Um bom feedback mostra o que foi feito adequadamente, o que precisa ser melhorado e como avançar.
E há ainda a inteligência artificial, que acrescenta uma nova camada a esse desafio. Se uma ferramenta consegue produzir um texto, resumir informações ou sugerir respostas em segundos, a universidade precisa valorizar ainda mais aquilo que não pode ser reduzido à reprodução de informações: pensamento crítico, análise, ética, criatividade, argumentação e capacidade de resolver problemas.
Por isso, talvez não seja necessário criar uma pedagogia específica para a Geração Z. Muitas das estratégias que favorecem esses estudantes também podem favorecer estudantes de qualquer idade: aprendizagem ativa, significado, participação, recuperação do conhecimento, feedback qualificado e aplicação prática.
O desafio contemporâneo da docência não é competir com a tecnologia. É criar experiências de aprendizagem suficientemente significativas para que a tecnologia esteja a serviço do conhecimento e não o contrário.
No fim, a pergunta mais importante talvez não seja “como ensinar uma geração diferente?”, mas como criar experiências de aprendizagem que façam sentido, promovam pensamento e preservem o rigor acadêmico em um mundo que mudou?
Essa não é uma pergunta sobre a Geração Z. É uma pergunta sobre o futuro da educação.








